CARTA IIII - A MEDALHA

 

Um homem de terno cinza e gravata avermelhada, sentado com os braços apoiados numa mesa com feições humanas. Sobre a mesa, uma folha de papel de um lado e do outro uma caneta. Exibe uma medalha de honra ao mérito no peito. Dois braços saindo das laterais da carta seguram seus tornozelos e os pés estão sobre um pequeno tapete ornamental. De um lado da mesa, na parede, vemos uma tomada e do outro um pequeno orifício. 

 

Uma lâmpada acesa ilumina o ambiente. De um lado uma janela com grades, onde é possível ver o céu azul e o sol do lado de fora, do outro um pequeno quadro de uma paisagem bucólica. Um cano parece abastecer o ambiente com o ar artificial com perfume floral.

 

Duas cabeças, que parecem dizer alguma coisa, flutuam ao lado de sua própria cabeça, agora aberta. O que sussurram?

 

Análise da Carta

 

A MEDALHA é um arcano que trata do auto aprisionamento e de um questionável ideal de liberdade. Um homem que se debruça cansado, sobre uma mesa de trabalho, sonhando em dia colher os louros que lhe prometeram, executando um trabalho enfadonho. Hoje ele percebe que se vendeu por muito pouco.

 

Do lado esquerdo da parede, um pequeno quadro com um belo retrato de uma paisagem bucólica. Foi pendurado assim que escolheu aquele ofício. Deve ter pensado: “É onde vou estar daqui uns anos, quando for bem sucedido neste trabalho”. Pelo encanamento logo acima, perfume floral é lançado no ambiente, simulando a natureza aberta, um campo florido, as margens de um belo lago.

 

O sol brilha forte lá fora e é possível ve-lo por entre as grades da janela, porém o que ilumina aquele cubículo é uma luz artificial, fraca e de vida útil reduzida, graça  à obsolescência programada.

 

Uma tomada do lado esquerdo da mesa com feições humanas à espera de algum equipamento que nunca veio, ou que logo se estragou. É uma fonte de energia mal usada e que continua ali, ignorada e esquecida num passado distante. Do lado direito um pequeno buraco, por onde ele pode pode, discretamente e sem ser notado, observar o mundo lá fora.

 

A mesa com feições humanas é a mesma que  o acompanha desde o primeiro dia de trabalho. Sendo sua companheira fiel, é testemunha de tudo que já se passou naquele ambiente, é a sua confidente, sua amante. Sobre ela uma caneta, do lado esquerdo. É com ela que assina os documentos arquivados do lado direito, que o manterão ocupados pelos próximos anos.

 

Seus pés estão seguros por dois braços que saem das laterais da carta. Um braço no passado e outro no futuro. Juntos são mais fortes e garantem que o homem de bigode, continue imóvel no presente. Ele não pode e não vai abandonar seu posto e seu prêmio é uma medalha de honra ao mérito que carrega no peito.

 

Duas cabeças sussurram mentiras e devaneios em seus ouvidos: a do lado esquerdo promete um futuro promissor, a do lado direito já ciente de que suas escolhas não valeram tanto à pena, reclama rancores e mágoas. Sua própria cabeça se abre, se revelando vazia.

 

Apenas um pequeno tapete surrado, serve como ornamento praquele assoalho sem cores e frio. É onde descansa os pés, amarrados e imóveis.